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16 Jul 2009

Dor no calcâneo: área de sustentação e de sobreuso, o calcanhar abriga inúmeras lesões. Saiba como tratá-las

Não é à toa que a expressão derivada da mitologia grega -´calcanhar de Aquiles´ - indica o principal ponto fraco e/ou de sustentação de alguém. É sobre o calcâneo que o peso do corpo exerce maior pressão, respondendo pelo impacto contínuo da primeira fase da marcha, tornando-o uma região suscetível a diferentes tipos de lesões e traumas.
A fascia plantar, faixa fibrosa aponeurótica localizada na região plantar, dá sustentação e forma ao pé. Exigida ao extremo, essa região pode abrigar a fascite plantar, inflamação da fascia (principalmente em sua inserção no calcâneo). A doença, que tem na dor seu principal sintoma (intensificado após repouso prolongado e reduzido ao longo do dia), é causada por essa inflamação na fascia e não pela calcificação óssea (mais conhecida como ´esporão de calcâneo´), conforme muitas pessoas erroneamente pensam.
´A formação óssea não é a causa da dor, pois está situada fora da inserção da fascia. Além do que, metade dos pacientes que têm fascite plantar não possuem esporão de calcâneo´, explica o ortopedista e traumatologista Paulo Giordano Baima Colares, especialista em ortopedia infantil e afecções do pé (adulto) do Hospital São Mateus e da Clínica Ortopédica São Mateus, instalada no mesmo complexo hospitalar. Dr. Paulo Colares integra a Clínica Dr. Colares, do Hospital São Carlos, além de ser preceptor da Residência Médica do Serviço de Ortopedia Pediátrica do Instituto José Frota (IJF).

Retropé e talalgias

O pé pode ser dividido em regiões que são importantes para se localizar as queixas e seus respectivos sítios nosológicos: retropé (osso tálus e calcâneo); mediopé (ossos mediotarsais); e antepé (metatarsos e falanges). A dor no retropé, queixa comum dos pacientes no consultório, pertence as possibilidades diagnósticas chamada de talalgias.
O diagnóstico de fascite plantar (esporão de calcâneo para os leigos) costuma ser confundido com várias outras doenças que atingem a região posterior do pé, acarretando dificuldade no diagnóstico e consequente aumento no já prolongado tempo de tratamento. Alguns detalhes nas queixas relatadas pelos pacientes podem nortear o correto diagnóstico, agilizando o tratamento, informa o ortopedista Paulo Colares.

Fascite

A dor, quando localizada na região medial plantar do calcanhar, piorada após repouso prolongado, tem forte indício de ser a tão comum fascite plantar proximal ou insercional do calcâneo. O aumento no quadro doloroso após esse repouso é ocasionado pelo encurtamento da fascia plantar.

Ao primeiro suporte do pé no solo provoca um estiramento brusco da fascia, causando dor. Forças de tração durante a fase de apoio na marcha levam ao processo inflamatório, implicando em fibrose e degeneração. Esforços prolongados e repetidos sobre o pé, especialmente o retropé, ampliam a dor, estando provavelmente associado à causa da doença. Corridas, saltos e atividades de impacto agravam a dor.

O paciente costuma apresentar claudicação antálgica com apoio sobre a parte lateral e/ou anterior do pé. Apesar de não ser incapacitante, geralmente atrapalha as atividades laborais sendo considerado um problema para os profissionais que trabalham em pé, andam por períodos prolongados, atletas e obesos, especialmente as mulheres. Também podem estar envolvidos na gêneses: a assimetria do comprimento dos membros inferiores; a pronação excessiva do retropé (virado para dentro); a pouca flexibilidade do arco longitudinal; a rigidez das musculaturas da panturrilha; o uso de calçados rígidos; e o aumento do tamanho da passada no decorrer da corrida.
É de 6 meses o tempo médio que pode durar o tratamento e a melhora efetiva da fascite plantar. As pessoas devem estar cientes que mesmo com o diagnóstico correto, o processo é lento e, muitas vezes, doloroso.
O diagnóstico da fascite plantar é clínico podendo ser detectado por ultrassonografia (US) ou ressonância nuclear magnética (RNM). O tratamento costuma ser prolongado e, preferencialmente, não cirúrgico (conservador) podendo ser empregado, além de repouso do esforço desencadeante, medicação antinflamatória e medidas não invasivas: uso de gelo ou calor; fisioterapia; alongamentos; palmilhas/calcanheiras; órteses noturnas; assim como ondas de choque extracorpóreo.
As infiltrações são excepcionais e não devem ser repetidas por gerarem atrofia do coxim gorduroso (camada lipídica subcutânea e trabecular que reveste e contorna toda a planta do pé, especialmente o calcâneo) e a ruptura da fascia. As cirurgias raramente são indicadas.
´Quando o paciente é um corredor e a dor está localiza na região plantar do mediopé, podemos estar diante da fascite plantar clássica ou distal. Seu tratamento se assemelha ao da fascite proximal´, informa o ortopedista Paulo Colares. Também ressalta ser ´importante que a população esteja ciente que a efetiva melhora na fascite plantar, mesmo quando devidamente diagnosticada e tratada, é um processo lento, podendo, por vezes, durar 6 meses ou até mais´.

Síndromes compressivas

A dor na região posterior do pé também pode ocorrer devido ao processo de compressão de algum nervo (como o plantar medial ou ramo do plantar lateral) por estruturas adjacentes ao seu trajeto no pé, que desencadeiam sintomas similares (apesar de apresentarem áreas de dormência/formigamento, a dor é em queimação e no caso do plantar lateral, há a piora com o decorrer do dia). Importante: tanto o diagnóstico quanto o tratamento são diferentes das fascites. A eletroneuromiografia pode ser útil na compressão do nervo plantar medial (Síndrome do Túnel do Tarso),além de imagem de RNM. A indicação cirúrgica é comum, mesmo que antes possa ser adotado o uso de palmilhas, fisioterapia e medicação.

Tendinites e calçados

Em pacientes que fazem esforços exagerados sobre o retropé, especialmente os corredores e atletas, são bastante comuns as tendinites dos flexores longos e curtos dos dedos, tibial posterior e anterior, fibulares e do Aquiles. Nesse último, no tão conhecido ´calcanhar de Aquiles´ são encontrados sítios de inflamação, que devem ser reconhecidos e tratados de forma diferenciada. A tendinite incersional do calcâneo, a bursite retrocalcaneana e a doença de Haglund podem necesssitar de cirurgia específica.

O uso de órteses adaptadas para cada caso é de grande importância no tratamento dessas afecções. Sejam palmilhas moldadas, palmilhas ou calcanheiras de silicone, com coxins, elevações de região específica do pé e outras. ´Isso costuma ser motivo de preocupação entre o vaidoso público feminino de regiões quentes como Fortaleza, pois, como geralmente não é possível adequar as palmilhas às sandálias, as mulheres se recusam a trocar a beleza por algum alívio da dor´, descreve Paulo Colares.

Os saltos são coadjuvantes no tratamento de algumas talalgias. ´Costumamos prescrever saltos baixos para as fascites (e alongar o complexo aponeurótico fascial), e saltos mais elevados para as talalgias posteriores (que acometem o tendão de Aquiles)´.

Traumatismos

´Onde há uma história de trauma, são comuns sequelas dolorosas nas fraturas de calcâneo, talus ou ossos do médiopé que provocam algumas síndromes compressivas e as artroses pós traumáticas´, informa Colares.

A exemplo de outras articulações de carga, o retropé também é bastante acometido por processos degenerativos articulares como as artroses, que necessitam geralmente de tratamento cirúrgico. São também possíveis as artropatias reumáticas com suas artrites e deformidades.

Algumas deformidades comuns nos membros inferiores, como o pé plano (sem cava) e o pé cavo varo (cava do pé acentuada e menos flexível), podem predispor a dores e artrose em sua região posterior. Nestes casos, explica, necessitam de tratamentos específicos.

A atrofia degenerativa ou o traumatismo do coxim gorduroso também podem causar dores no pé, especialmente na região do retropé e do antepé. O contato do calcanhar no solo se torna muito doloroso e de difícil tratamento. Estão predispostos a tais problemas os pacientes ativos e obesos, sendo o quadro irreversível. Nesta situação, informa o médico, o tratamento pode incluir o uso de palmilhas e órteses específicas.

Processos infecciosos

Também devem ser lembrados os processos infecciosos de regiões específicas do retropé, principalmente as tenossinivites infecciosas e osteomielites (especialmente causadas por microorganismos de baixa virulência) que podem apresentar os mesmos sintomas dolorosos. Doenças tumorais, apesar dos relatos serem raros, devem ser lembradas pelo ortopedista, a exemplo da fibromatose plantar e o osteoma osteóide.

´O tratamento dessas doenças deve ser feito de forma diferenciada, podendo resultar, caso não seja feito um diagnóstico preciso, na efetiva não cura da doença em si e/ou gerar tratamentos ainda mais prolongados, amplificando o quadro doloroso, o incômodo e a baixa qualidade de vida a que são acometidos a maior parte dos pacientes

Fonte: Diario on line

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